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THE POPE / FERNANDO MEIRELLES – DIA 2 / O PRAZER DE MERGULHAR

04.12.2017

Enquanto a equipe se preparava para rodar o momento no qual o jovem Bergoglio sentiu o chamado de Deus na Basílica de Flores em Buenos Aires, fui andar pela igreja buscando algum ponto de vista interessante que pudesse ter escapado em nossas visitas anteriores. Em uma capelinha lateral me chamou a atenção um garoto de uns 19 anos que rezava alheio ao nosso movimento. Estava focado como se trocasse WhatsApp com um amigo. O que este moleque estaria sentindo para estar tão alheio a confusão de cabos, monitores e da equipe ao seu redor? Que conexão é esta? É alguma coisa que vem de fora para dentro, ou é algo que vem de dentro para dentro, como um fenômeno emocional? Fiquei tocado pela sua entrega.

Nasci católico, fui a missa semanalmente até os nove anos, estudei em colégio de padres, batizei meus filhos, mas a igreja virou algo distante na minha vida. Não sei se cheguei a ser ateu, mas dizer que sou agnóstico também já não está resolvendo a parada. Este filme tem mexido comigo, tem feito com que eu me pergunte no que acredito afinal. No que pode ser uma vida mais sutil.

Esta é a beleza da profissão. Você sempre precisa mergulhar fundo no universo em que está entrando, mas ninguém mergulha impunemente. O trabalho de contar histórias não é só uma fonte de financiamento da minha vida mas é minha própria vida, porque me transforma.

Do primeiro roteiro de julho de 2016,  até este que estou filmando, foram seis versões.  No processo de desenvolvimento da história houve algumas reuniões ao vivo em LA e Londres, dezenas por Skype e centenas de troca de emails com notas e réplicas e tréplicas entre roteiristas, produtores e Netflix. Este processo de desenvolvimento de roteiro é a parte mais demorada mas, das mais prazeirosas e talvez a mais importante na realização de um filme. Li alguns livros sobre Francisco, apenas um sobre Bento XVI, artigos e ensaios, assisti documentários, alguns longas e uma série sobre o Vaticano, os conclaves e sobre a ditadura argentina, visitei os lugares por onde ele passou, conversei com gente sobre os dois papas, sobre a igreja e sobre a fé e, ainda apertei sua mão num evento que tem todas as quartas feiras na Praça São Pedro. O tal mergulho.

Quando li o roteiro pela primeira vez vi ali um filme sobre o encontro de dois personagens muito inteligentes, cujas diferenças de pensamento anunciava um confronto sangrento.  Bento XVI representa a Igreja conservadora, que acredita ser seu papel ensinar e guiar o mundo. Do outro lado do ringue o Cardeal Bergoglio, que defende uma Igreja que prefere enxergar e escutar o mundo.  Como ambos também tem personalidades opostas e o Papa Francisco ganha de 7X1  em carisma, nesta primeira leitura era óbvio que o argentino pareceu ser o mocinho e o alemão ficou com o papel de vilão. Só que não.

No mergulho fui entendendo que Bento XVI não é como muitos pintam, o ex-soldado nazista, apoiado pela direita mais conservadora nos EUA, comandando uma igreja atolada em escândalos financeiros e abusos sexuais.  Por baixo das 16 peças de roupa que trouxe de volta para o Vaticano, há um homem simples e um dos intelectuais mais importantes do século. Dizem. Em seus livros ,que não li, ele busca compreender a fé  –  o que se passa dentro da cabeça daquele garoto sentado na capela em Buenos Aires – como se fosse um cientista, pela razão. Este é o trabalho dos teólogos. Ratzinger não queria ser papa. Quem o conhece diz que ele preferiria ter ficado orando e escrevendo em um pequena biblioteca em Frisinga, na Alemanha, que é o que faz hoje no Vaticano. Virar papa é abrir mão da própria vida. Um martírio. Ele acabou encarando o abacaxi para tentar recolocar a Igreja no eixo, livrando-a do risco de alguém da banda reformista, como Bergoglio, vir a controla-la. Teve sucesso por um tempo.

Já Bergoglio, para a minha surpresa, antes de se tornar papa não era esta figura carismática e encantadora que conhecemos e que me levou a topar fazer este filme.  Como chefe dos jesuítas na Argentina e depois como bispo de Buenos Aires era conhecido por seu semblante fechado, por poucos palavras, raríssimo sorriso e pelo seu autoritarismo. “Uma pessoa desagradável”, resumiu um jesuíta que morou com ele.  Bergoglio era duro com os seminaristas, ensimesmado e reservava seu sorriso apenas para poucos escolhidos. Mas lavava as roupas e cozinhava para todos nos finais de semana, mesmo sendo o superior.  Sempre recusou qualquer privilégio e era atento as necessidades dos outros.  Mesmo não gostando do ex-chefe até hoje, este padre o respeita por sua postura reta.

Fofoca: Durante o conclave que o elegeu, um grupo de jesuítas que morou com ele, acompanhava pela TV o evento.  Quando Bergoglio saiu no balcão com seu sorriso e fala mansa: “-Buonasera sorelli e fratelli…”  Todos ficaram chocados. “- Buonasera?” Aquele homem doce que falava para milhares na Praça São Pedro e para um bilhão de fieis,  não era o cardeal que conheciam tão bem. “Quem era aquela pessoa?”, se perguntaram.

A mesma impressão é compartilhada por quase todos que conviveram com Bergoglio em Buenos Aires, com quem tive oportunidade de conversar.  O fato é que o homem mudou e muito. Intrigado, sempre pergunto para quem o conhece, quando e porque teria acontecido esta mudança. Um colega seu, também jesuíta, me deu a melhor resposta até agora:  “Como sou um homem de fé, acredito que, no exato momento de sua eleição, o Espírito Santo tenha provocado a transformação.

Para o filme, a diferença entre a percepção que temos do papa e a realidade, virou um problemão. O roteiro foi escrito imaginando um personagem mais parecido com o que vemos na mídia, mas ele não era assim. A ficha caiu: filmes sobre personagens vivos podem ser uma encrenca. O que fazer?

Foi dura a decisão, mas optei por criar um Bergoglio mais seco, mais chato, de poucas palavras e nenhum sorriso, principalmente no período em que era o chefe da ordem. Por outro lado, vi que não poderia deixar nas mãos do Espírito Santo sua transformação, pois a cena do conclave, quando supostamente o Espírito Santo atuou, só acontece no final do filme e ninguém suportaria um filme inteiro com um personagem mala. Minha opção foi acompanhar a teoria do bispo Ernesto Giobano que nos ajudou em Buenos Aires. Ele conheceu Bergoglio quando tinha 16 anos, na época o atual papa era seu professor no Colégio Máximo e de cara o colocou para tomar conta do chiqueiro do seminário. Apesar disso, Giobano diz que o jovem Bergoglio era alegre e piadista como hoje, quando a responsabilidade caiu em seus ombros ele foi endurecendo. Ele acredita que Bergoglio começou a voltar ao que era alguns anos antes de virar papa. Nos últimos tempos, ainda em Buenos Aires, já estava ficando mais doce. Diz. Foi ótima notícia. Embarquei na versão do bispo e Jonathan Pryce fará um Bergoglio mais palatável.

De qualquer maneira, esta história de transformação, que me deixou inquieto por um tempo, é boa notícia. Ela me dá alguma esperança em relação a mim mesmo. Mostra que é possível melhorarmos, mesmo depois dos 70. E ainda lança a bomba do dia:  O Tchan errou! Pau que nasce torto, pode sim se endireitar.

Fernando.

(04/12/2017)

Clique aqui para rever textos de Fernando Meirelles enviados para o site durante a produção dos longas “Ensaio Sobre a Cegueira” e “360º”.